quinta-feira, 24 de abril de 2014

Nisso Darwin tinha razão

Hoje, entrando na garagem do meu prédio, muito tranquila, pensei: "nossa, esse espaço é enorme, por que eu tinha tanta dificuldade para entrar com carro aqui?" Eu chegava a chamar o porteiro, pedia ajuda, ele ria e me ajudava, eu ria também, não sou boa com espaços.

Isso me fez pensar nas coisas das vidas. Como nos adaptamos, nos acostumamos com algo que, inicialmente, nos era terrível, sofrido, desesperador. Lembrei-me de que, quando eu ia me aproximando da minha rua, já gelava porque teria de entrar na garagem, estacionar o carro, sem causar prejuízos a ninguém, nem a mim, claro.

Quantas foram as vezes que desejei que uma aula difícil que eu tinha que dar passasse logo. Quantas foram as vezes que desejei que a prova que eu teria de fazer ou a entrevista de emprego fosse algo passado, imaginava sempre o dia seguinte de tal evento. Quantas foram as vezes que eu me perguntei quando passaria a dor da perda do meu pai.E tudo isso passou,porque passa, porque passa mesmo, se quisermos que passe.

Fiquei pensando em Darwin, e neste aspecto dou razão a ele: os que se adaptam sobrevivem. Eu poderia estar chorando até hoje a ausência do meu pai, que faria aniversário amanhã, por exemplo, mesmo que ainda ele me faça falta. Mas a vida precisou continuar. Eu poderia não pegar o carro mais quando bati pela primeira vez ou quando passei mal antes de encarar a Av. Brasil, mas eu preciso dele e hoje ele quase uma extensão de mim (se meu volante falasse...). Eu poderia nunca mais querer amar, também, por exemplo, quando vivi a primeira decepção e quando vieram todas as outras decepções. 

Acontece que uma hora a garagem parece bem mais larga, bem mais fácil de passar, e já consigo entrar nela cantando, mexendo no rádio, olhando a unha. E é a mesma garagem, com o mesmo tamanho.É a mesma vida, com as mesmas histórias, com as mesmas marcas, mas é ela que tenho e é com ela que vou viver. Ainda que eu encontre tantas conjunções adversativas, tantos "mas" no meio do caminho, eu tenho que continuar.

Sei que encararei mais espaços estreitos, perderei mais pessoas que amo, terei de dar mais aulas difíceis, apresentar trabalhos em congressos, fazer provas de alemão, contudo, eu tenho que encarar. Isso é clichê,mas vejo e encontro todos os dias pessoas que simplesmente não querem mais encarar e falam, talvez, pra que eu tenha pena:dirigir não é pra mim; esse emprego não é pra mim; essa faculdade não é pra mim; e , pior, amar não é pra mim. Ah, mas pra mim é, tudo isso e mais o que virá, porque se tem uma coisa que eu sei fazer é refazer planos e encontrar novas estratégias pra continuar as orações que se coordenam às adversativas, e não se subordinam a elas. 

Eu me adaptei e cá estou mais uma vez, Darwin!

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