quinta-feira, 31 de julho de 2014

Cofre

E quem segura um coração desencontrado?
E quem aguenta o soneto de separação?
E quem fica bem quando vê outro ao lado?
Ou o sorriso na foto daquele que disse não?

A tristeza em samba que fica tão bonita
A saudade também pra dizer que é só da nossa língua
E a memória às vezes é o algoz 
Da nossa história sem o nós

Mas o coração é sempre uma amorteca
Um cofre de amor irremediável
Pelo menos o meu em sua espera

Porque vive a certeza incontrolável
De que só nele tudo se supera
E por isso minha alma é uma alegriateca 


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Amor de saudade

Para desintoxicação da vida. Você nem tem a necessidade de ler. Eu tenho de escrever. Entre trabalhos e avaliações,a escrita criativa vai perdendo espaço, ao passo da desimportância da lógica de produção humanamente improdutiva. Inegável necessidade em mim de produzir uma outra escrita, ainda que tanto tenha relutado- quando pequena, achava que poetas morriam cedo e tinha medo.

Agora, sentada e produzindo o que preciso para passar pro lado de dentro da lógica, me peguei lembrando a vida. Diante de alguns acontecimentos e sofrimentos de pessoas próximas, de repente percebi uma lágrima, porque lembrava a dor que, com as obrigações, eu finjo esquecer.

"Caía a tarde feito um viaduto, e um bêbado trajando luto...". Começou a tocar, então, no rádio; e eu, naquela rota da rotina,a caminho do necessário, 6h20 da manhã, cheguei a ver meu pai no meio da sala, ouvindo seu vinil da Elis Regina. Eu me lembrei das suas danças, do seu rosto vermelho de algumas cervejas tomadas, do seu sorriso e boemia. Amante de música e de festa, a tal ponto que achava um absurdo a gente comemorar aniversário com uma música baixa e todos conversando. "Coloca um som aí".

Nossa vida, às vezes, era uma poesia mal feita; eu, muitas vezes, não conseguia compreender as métricas assimétricas que constituíam nossa história. Mas, hoje...ah, hoje, entendo o contexto de toda limitação daquele homem que Deus me deu como pai.

"Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente...". É a dor da ausência presente quando penso que gostaria que ele estivesse aqui. Ao mesmo tempo que é a presença forte que me faz pensar nos meus atos, com um desejo de ser honesta como ele, ou apenas acreditando que onde ele está  terá orgulho de mim.

"A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que 'terminar'". E acho que ainda, durante muito tempo, trarei comigo aquela imagem da cama do hospital e daquilo que o mantinha vivo sendo retirado. Acabou o sofrimento.

Azar,porque a esperança equilibrista, mesmo que  em cada passo dessa linha se machuque, sabe que o show sempre continua. Continua no som da cuíca  que ele fazia com a boca; no apito de escola de samba que ele imitava; nas festas de fim de ano de que ele tanto gostava.

Chego ao meu destino. A lágrima já tinha secado. Essas lembranças que me assaltam, respiro tranquila, são só amor de saudade, porque ele foi, com certeza, o homem que mais me amou.