sábado, 16 de maio de 2015

Três reflexões clichês

Tem tempo que não venho por aqui. Tem tempo que não tenho tempo pra fazer algo de que realmente gosto sem estar atrelado às obrigações. Quero deixar bem claro que gosto das minhas obrigações. Quero deixar bem claro até que sou uma pessoa que gosta de obrigações, rotinas, sistematizações da rotina, planejamento do dia etc. Sempre gostei, me julgue.

Mas há um tempo que não termino um livro que comecei porque quis, não porque alguma coisa externa a mim me exigiu. Há um tempo que não escrevo coisas como estas aqui.Esta semana me levou a algumas reflexões. Às vezes são necessários alguns acontecimentos para nos questionarmos sobre o rumo que damos às nossas vidas. E eu, chegando a uma nova fase, tenho pensado na vida, na minha vida. E nos rumos que não tomo, que deixei outros ou outras coisas tomarem por mim.

Primeira reflexão: há uma idade da nossa vida que simplesmente não cabem mais determinadas atitudes nossas e de outras pessoas. Joguinhos amorosos, alguém te cozinhando, alguém que te enrola com desculpas pra não ficar com você quando a única justificativa é que a pessoa não quer ficar com você, mas não cresceu o suficiente pra conseguir falar isso, por exemplo. (Transporte isso pra empregos e amigos, por exemplo)

Segunda reflexão: há limites. Dependendo da nossa personalidade, colocar limites é muito difícil. Eu sempre tento entender o lado do outro: ah estava cansado; ah estava confuso; ah estava estressado; ah, ah, ah. E assim as pessoas vão falando e fazendo o que querem, porque tá ali a pessoa super legal e amiga. É bom começar a falar: não, não aceito que fale assim comigo; agora quem precisa de um tempo de você sou eu; eu estou insatisfeita com isso; tal atitude foi uma injustiça diante do que faço ou sou e por aí vai. (Pra isso, você tem que saber quem você é, o que tem de bom, o que oferece de bom)

Terceira reflexão: atenção ao que estou me doando. Este ponto foi basal e crítico. É muito ruim se dar conta de que, de repente, você doou parte significativa da sua vida a algo ou a alguém que simplesmente não consegue dar valor a isso, que simplesmente age com indiferença diante do que você fez. Aí é hora talvez de respirar e pensar: fiz a minha parte, parto pra outra. Muitos nos doamos ao que não devemos e deixamos de lado aquilo que, de fato, nos traria plenitude se deixássemos a nossa alma (ânima) ali.

O pior é que é tudo tão clichê que chega a ser constrangedor. É tudo tão clichê que, achando clichê, não refletimos. Chegando aos 30, acho que é momento de começar a viver mesmo, com as suas próprias decisões, pensando nos outros, mas pensando também em você. Chegando aos 30, a vida chama pra você ser dona dela e não cabe mais a desculpa da inexperiência. Você pode até não ser a figura da sabedoria, mas, aos 30, já viveu alguma coisa suficiente pra te dar noção de quem você é e o que quer daqui pra frente.


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Não confunda encontro com amor

Há dias estou com  vontade de falar de AMOR. Aí reluto,porque sei que virão as piadinhas sobre a minha idade, sobre a minha vida, sobre aquilo que todos querem, mesmo que com outros nomes. Todo mundo quer ser amado, gente. Prova disso é a necessidade de aprovação que temos, seja escrevendo textos e postando fotos no Facebook, seja utilizando algum artifício pra chamar a atenção da sociedade. Todos queremos, de uma forma ou de outra, legitimar a nossa existência por meio do amor de quem nos ama e nos considera importantes.

Dito isso, penso o que tem acontecido com a gente. Vagamos por aí buscando olhares e/ou baixamos aplicativos buscando encontros. Mas, quando eles acontecem, projetamos nossas frustrações sobre o outro ou deixamos nossa insegurança comandar todo o "jogo"; até essa insegurança ficar insuportável e percebermos que não damos conta de encarar uma relação, com a desculpa de que temos muito tempo e muita gente ainda pra encontrar.

É um jogo. É um jogo tão cansativo que entender suas peças chega a dar preguiça. E não deveria ser um jogo, com táticas programadas, caras ensaiadas, falas memorizadas. O encontro é tão natural pro homem quanto beber e comer. "Ah, mas sou tímido e pra mim não é natural". Será que não? Será que tem sido difícil exatamente porque impuseram regras que vão de encontro à nossa natureza?

Conversava outro dia com as turmas e depois com colegas de trabalho. Você está interessado em alguém, mas não pode demonstrar muito, pra pessoa não achar que você é um otário que tá na mão dela. Você precisa fazer um doce, demorar a responder o whatsapp, fingir que o outro não tem tanta importância assim pra você e que você nem olhou um milhão de vezes pro celular pra ver se a mensagem tinha chegado. Você tem que fingir que tem alguém na parada, porque algo de muito estranho na outra pessoa a faz te querer mais quando você não está tão na dela.

E pior ainda, antes de ficar de fato com essa pessoa, pense no que as outras pessoas vão falar. Afinal, o que importa é exibir conquistas e a pessoa que te acompanha tem que parecer um troféu. Se está fora dos padrões, sei não, pode dar ruim pra você.

Ah, falei que ia falar de amor e acabei falando de encontro. E encontro não é o mesmo que amor, não seja tão apressadinho, é muito cedo pra amar, embora queiramos sempre, de forma atemporal, ser amados. 


quinta-feira, 31 de julho de 2014

Cofre

E quem segura um coração desencontrado?
E quem aguenta o soneto de separação?
E quem fica bem quando vê outro ao lado?
Ou o sorriso na foto daquele que disse não?

A tristeza em samba que fica tão bonita
A saudade também pra dizer que é só da nossa língua
E a memória às vezes é o algoz 
Da nossa história sem o nós

Mas o coração é sempre uma amorteca
Um cofre de amor irremediável
Pelo menos o meu em sua espera

Porque vive a certeza incontrolável
De que só nele tudo se supera
E por isso minha alma é uma alegriateca 


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Amor de saudade

Para desintoxicação da vida. Você nem tem a necessidade de ler. Eu tenho de escrever. Entre trabalhos e avaliações,a escrita criativa vai perdendo espaço, ao passo da desimportância da lógica de produção humanamente improdutiva. Inegável necessidade em mim de produzir uma outra escrita, ainda que tanto tenha relutado- quando pequena, achava que poetas morriam cedo e tinha medo.

Agora, sentada e produzindo o que preciso para passar pro lado de dentro da lógica, me peguei lembrando a vida. Diante de alguns acontecimentos e sofrimentos de pessoas próximas, de repente percebi uma lágrima, porque lembrava a dor que, com as obrigações, eu finjo esquecer.

"Caía a tarde feito um viaduto, e um bêbado trajando luto...". Começou a tocar, então, no rádio; e eu, naquela rota da rotina,a caminho do necessário, 6h20 da manhã, cheguei a ver meu pai no meio da sala, ouvindo seu vinil da Elis Regina. Eu me lembrei das suas danças, do seu rosto vermelho de algumas cervejas tomadas, do seu sorriso e boemia. Amante de música e de festa, a tal ponto que achava um absurdo a gente comemorar aniversário com uma música baixa e todos conversando. "Coloca um som aí".

Nossa vida, às vezes, era uma poesia mal feita; eu, muitas vezes, não conseguia compreender as métricas assimétricas que constituíam nossa história. Mas, hoje...ah, hoje, entendo o contexto de toda limitação daquele homem que Deus me deu como pai.

"Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente...". É a dor da ausência presente quando penso que gostaria que ele estivesse aqui. Ao mesmo tempo que é a presença forte que me faz pensar nos meus atos, com um desejo de ser honesta como ele, ou apenas acreditando que onde ele está  terá orgulho de mim.

"A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que 'terminar'". E acho que ainda, durante muito tempo, trarei comigo aquela imagem da cama do hospital e daquilo que o mantinha vivo sendo retirado. Acabou o sofrimento.

Azar,porque a esperança equilibrista, mesmo que  em cada passo dessa linha se machuque, sabe que o show sempre continua. Continua no som da cuíca  que ele fazia com a boca; no apito de escola de samba que ele imitava; nas festas de fim de ano de que ele tanto gostava.

Chego ao meu destino. A lágrima já tinha secado. Essas lembranças que me assaltam, respiro tranquila, são só amor de saudade, porque ele foi, com certeza, o homem que mais me amou.


domingo, 8 de junho de 2014

A ciranda do amor desencontrada

Estávamos lá sentadas observando. Estava lá sentada observando.Não era muito a minha praia,não era muito o meu lugar, tudo muito arrumadinho, homens e mulheres. Tudo muito arrumadinho com suas roupas de marca e suas propagandas de si. 

Era tudo tão "arrumadinho" que havia um lugar pra dança e poucos dançavam perto de suas próprias cadeiras. Mas, o que mais me chamava a atenção nem era isso. No fundo, a maioria, homens e mulheres, estava ali tentado se encontrar por meio de algum encontro.

Eles com suas táticas: olhares, peito estufado, ora cara de que tô muito aí,ora um certo desprezo pra deixar a sedução mais emocionante. O copo na mão, a etiqueta na camisa, a chave do carro,o ar de "tenho dinheiro, carro, poder e posso te ter", porque um dia ensinaram a eles que devia ser assim, que seus corações deviam estar em outro órgão, e sua sedução no bolso. 

Elas com seus cabelos e unhas como devem ser, com suas coxas de fora, assim como parte dos seus seios, das suas barrigas, enfim, do seu corpo. Iam ao banheiro e voltavam; pegavam uma bebida e voltavam; tudo pelo caminho mais longo, para deixarem suas marcas, para se colocaram na vitrine a fim de serem escolhidas pelos seus atributos. Tudo porque foi assim que lhes ensinaram. Apresentem seus dotes, deem uma rebolada sensual, mostrem o corpo e assim chegarão aos seus objetivos. Nada de tão diferente como antigamente. Temos de apresentar uma função ao homem, assim seremos amadas. Nada de muito diferente, quase sempre, como sempre, continuamos enfeites.

O triste é que, nessa ciranda da sedução, mesmo que de forma acrítica sigamos os paradigmas, todos ali só querem uma coisa: o encontro de verdade. O problema é que a música do amor tá tocando num ritmo e a maioria dança em outro compasso. E até hoje conheci ninguém que não queira entrar na dança certa, que não queira encontrar seu tom no tom de outro, porque, ainda que alguns digam o contrário, partilhar o que tem em nós ainda é a melhor coisa da vida.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Nisso Darwin tinha razão

Hoje, entrando na garagem do meu prédio, muito tranquila, pensei: "nossa, esse espaço é enorme, por que eu tinha tanta dificuldade para entrar com carro aqui?" Eu chegava a chamar o porteiro, pedia ajuda, ele ria e me ajudava, eu ria também, não sou boa com espaços.

Isso me fez pensar nas coisas das vidas. Como nos adaptamos, nos acostumamos com algo que, inicialmente, nos era terrível, sofrido, desesperador. Lembrei-me de que, quando eu ia me aproximando da minha rua, já gelava porque teria de entrar na garagem, estacionar o carro, sem causar prejuízos a ninguém, nem a mim, claro.

Quantas foram as vezes que desejei que uma aula difícil que eu tinha que dar passasse logo. Quantas foram as vezes que desejei que a prova que eu teria de fazer ou a entrevista de emprego fosse algo passado, imaginava sempre o dia seguinte de tal evento. Quantas foram as vezes que eu me perguntei quando passaria a dor da perda do meu pai.E tudo isso passou,porque passa, porque passa mesmo, se quisermos que passe.

Fiquei pensando em Darwin, e neste aspecto dou razão a ele: os que se adaptam sobrevivem. Eu poderia estar chorando até hoje a ausência do meu pai, que faria aniversário amanhã, por exemplo, mesmo que ainda ele me faça falta. Mas a vida precisou continuar. Eu poderia não pegar o carro mais quando bati pela primeira vez ou quando passei mal antes de encarar a Av. Brasil, mas eu preciso dele e hoje ele quase uma extensão de mim (se meu volante falasse...). Eu poderia nunca mais querer amar, também, por exemplo, quando vivi a primeira decepção e quando vieram todas as outras decepções. 

Acontece que uma hora a garagem parece bem mais larga, bem mais fácil de passar, e já consigo entrar nela cantando, mexendo no rádio, olhando a unha. E é a mesma garagem, com o mesmo tamanho.É a mesma vida, com as mesmas histórias, com as mesmas marcas, mas é ela que tenho e é com ela que vou viver. Ainda que eu encontre tantas conjunções adversativas, tantos "mas" no meio do caminho, eu tenho que continuar.

Sei que encararei mais espaços estreitos, perderei mais pessoas que amo, terei de dar mais aulas difíceis, apresentar trabalhos em congressos, fazer provas de alemão, contudo, eu tenho que encarar. Isso é clichê,mas vejo e encontro todos os dias pessoas que simplesmente não querem mais encarar e falam, talvez, pra que eu tenha pena:dirigir não é pra mim; esse emprego não é pra mim; essa faculdade não é pra mim; e , pior, amar não é pra mim. Ah, mas pra mim é, tudo isso e mais o que virá, porque se tem uma coisa que eu sei fazer é refazer planos e encontrar novas estratégias pra continuar as orações que se coordenam às adversativas, e não se subordinam a elas. 

Eu me adaptei e cá estou mais uma vez, Darwin!

sábado, 8 de março de 2014

Pátria irresponsável

"Tia, me dá uma moedinha". Eu já tinha reparado naquele menino sentado quando entrei no mercadinho. Reparei suas pernas e pés sujos, as moedas espalhadas no chão e ele brincando de contá-las. Entrei, comprei e esqueci. Até passar por ele novamente e ele me pedir uma moedinha; abri a bolsa e lhe dei a moeda. Crianças não deviam ficar na rua assim, saí pensando; crianças não deviam ficar na rua assim e pedindo dinheiro; crianças não deviam pedir dinheiro e/ou trabalhar. De quem é a culpa?

Lembrei-me, então, de quando eu tinha seis anos e, assistindo a algo na TV, comecei a me questionar por que eu tinha casa e outras crianças não tinham. Acho que ali a minha primeira ficha caiu. Fiquei me questionando quem era o moço que escolhia quais crianças teriam comida e casa e quais não teriam; e por que eu fui escolhida pra ter e outras não; quais eram os critérios, se todas nós deveríamos ter casa e comida. Escrevi minha primeira poesia, intitulada de "menina de rua", cheguei a ficar em primeiros lugares nos concursos de poesia de colégios públicos. Mas, eu continuava tendo casa e comida, enquanto outras crianças não.

Ainda na infância, meus pais não queriam que acreditássemos em Papai Noel, porque a situação andava bem ruim lá em casa e eles não queriam que achássemos que Papai Noel não gostava da gente quando não tínhamos presentes no Natal; quando muito tínhamos uma ceia bonita. Acho que minhas irmãs e eu nunca nos incomodamos com isso, tínhamos a casa e a comida, e pais que nos amavam.

Fui pensando nisso tudo enquanto voltava do mercadinho. Pensei no lugar onde estou hoje, onde estamos: minhas irmãs e eu. Nada nos falta, podemos até fazer algumas extravagâncias, compramos roupas de marca, coisa que não tínhamos na infância e na adolescência. Temos TV a cabo e até lazer temos! Como chegamos até aqui? Não foi por mérito! Não foi só mérito, foram as oportunidades que surgiram.

Meu pai arrumou um  emprego fixo,não dependia só dos "pingadinhos" das causas que ele, como advogado, ganhava. Sua primeira atitude foi nos tirar da escola pública. Estudamos em um colégio fraco,mas particular, o que já nos dava a garantia de aulas todos os dias e de todas as disciplinas. Minha irmã mais velha passou pra um técnico estadual, a gente achava que seria bom. Até ela fazer seu primeiro vestibular e zerar física porque, simplesmente, ela não teve aulas de física no antigo segundo grau. Meu pai a colocou em um bom pré-vestibular da época- particular- e ela agarrou a chance e se esforçou muito, podendo assistir a mais aulas, em mais filiais do cursinho. Passou para as três principais universidades do Rio, curso de direito. Felicidade total, futura advogada e ainda formada em faculdade pública.

Eu me inspirei, já estudava em colégio particular, mudei para o mesmo onde ela fez o cursinho, meu pai podia pagar até a turma especial de humanas na época. A vida já tinha melhorado pra gente, tínhamos ceia de Natal e presentes também. Quatro anos depois fui a segunda filha a ingressar em uma universidade federal, Jornalismo, meu sonho. Isso porque quando temos as oportunidades é possível até sonhar, gente!

Para resumir, acabei jornalismo, comecei a dar aula, trabalhei na área também, larguei a sonhada profissão, tentei de novo um vestibular, passei pra pública de novo, larguei um emprego, me enfiei em outros,ganhando menos até, voltei a ser estagiária, arrumei um emprego de verdade, comprei até um carro, tenho meu salário, ufa, nem sou mais da classe desfavorecida deste país. Mérito meu? Não, não somente! Eu me esforcei bem,mas me deram as oportunidades. Os meus pais principalmente quando puderam bancar meus sonhos.

E o menino do mercadinho? Onde estão seus pais? Na falta deles, onde está o Estado? Será que o menino sonha? Será que vai à escola e lá ele tem todas as aulas? Será que alguém, como meus pais, lhe fala que no Brasil as coisas são muito difíceis e que estudar pode ser a saída? Mas, será que, além disso, ele tem o que comer antes de ir estudar? Será que alguém ajeita seu uniforme e o leva até a escola, diz que vai dar tudo certo, cobra que ele estude, parabenize quando as notas são boas, acalente quando são ruins. Será que alguém lhe dá a chance de ser só um menino?

Esta pátria amada... Esta paternidade irresponsável...Estes filhos mutilados de seus direitos sob um discurso perverso e meritocrático...Estes meninos que tiram a beleza da cidade e insistem em nos mostrar que este Brasil, essa pátria ainda é pai de poucos.