"Tia, me dá uma moedinha". Eu já tinha reparado naquele menino sentado quando entrei no mercadinho. Reparei suas pernas e pés sujos, as moedas espalhadas no chão e ele brincando de contá-las. Entrei, comprei e esqueci. Até passar por ele novamente e ele me pedir uma moedinha; abri a bolsa e lhe dei a moeda. Crianças não deviam ficar na rua assim, saí pensando; crianças não deviam ficar na rua assim e pedindo dinheiro; crianças não deviam pedir dinheiro e/ou trabalhar. De quem é a culpa?
Lembrei-me, então, de quando eu tinha seis anos e, assistindo a algo na TV, comecei a me questionar por que eu tinha casa e outras crianças não tinham. Acho que ali a minha primeira ficha caiu. Fiquei me questionando quem era o moço que escolhia quais crianças teriam comida e casa e quais não teriam; e por que eu fui escolhida pra ter e outras não; quais eram os critérios, se todas nós deveríamos ter casa e comida. Escrevi minha primeira poesia, intitulada de "menina de rua", cheguei a ficar em primeiros lugares nos concursos de poesia de colégios públicos. Mas, eu continuava tendo casa e comida, enquanto outras crianças não.
Ainda na infância, meus pais não queriam que acreditássemos em Papai Noel, porque a situação andava bem ruim lá em casa e eles não queriam que achássemos que Papai Noel não gostava da gente quando não tínhamos presentes no Natal; quando muito tínhamos uma ceia bonita. Acho que minhas irmãs e eu nunca nos incomodamos com isso, tínhamos a casa e a comida, e pais que nos amavam.
Fui pensando nisso tudo enquanto voltava do mercadinho. Pensei no lugar onde estou hoje, onde estamos: minhas irmãs e eu. Nada nos falta, podemos até fazer algumas extravagâncias, compramos roupas de marca, coisa que não tínhamos na infância e na adolescência. Temos TV a cabo e até lazer temos! Como chegamos até aqui? Não foi por mérito! Não foi só mérito, foram as oportunidades que surgiram.
Meu pai arrumou um emprego fixo,não dependia só dos "pingadinhos" das causas que ele, como advogado, ganhava. Sua primeira atitude foi nos tirar da escola pública. Estudamos em um colégio fraco,mas particular, o que já nos dava a garantia de aulas todos os dias e de todas as disciplinas. Minha irmã mais velha passou pra um técnico estadual, a gente achava que seria bom. Até ela fazer seu primeiro vestibular e zerar física porque, simplesmente, ela não teve aulas de física no antigo segundo grau. Meu pai a colocou em um bom pré-vestibular da época- particular- e ela agarrou a chance e se esforçou muito, podendo assistir a mais aulas, em mais filiais do cursinho. Passou para as três principais universidades do Rio, curso de direito. Felicidade total, futura advogada e ainda formada em faculdade pública.
Eu me inspirei, já estudava em colégio particular, mudei para o mesmo onde ela fez o cursinho, meu pai podia pagar até a turma especial de humanas na época. A vida já tinha melhorado pra gente, tínhamos ceia de Natal e presentes também. Quatro anos depois fui a segunda filha a ingressar em uma universidade federal, Jornalismo, meu sonho. Isso porque quando temos as oportunidades é possível até sonhar, gente!
Para resumir, acabei jornalismo, comecei a dar aula, trabalhei na área também, larguei a sonhada profissão, tentei de novo um vestibular, passei pra pública de novo, larguei um emprego, me enfiei em outros,ganhando menos até, voltei a ser estagiária, arrumei um emprego de verdade, comprei até um carro, tenho meu salário, ufa, nem sou mais da classe desfavorecida deste país. Mérito meu? Não, não somente! Eu me esforcei bem,mas me deram as oportunidades. Os meus pais principalmente quando puderam bancar meus sonhos.
E o menino do mercadinho? Onde estão seus pais? Na falta deles, onde está o Estado? Será que o menino sonha? Será que vai à escola e lá ele tem todas as aulas? Será que alguém, como meus pais, lhe fala que no Brasil as coisas são muito difíceis e que estudar pode ser a saída? Mas, será que, além disso, ele tem o que comer antes de ir estudar? Será que alguém ajeita seu uniforme e o leva até a escola, diz que vai dar tudo certo, cobra que ele estude, parabenize quando as notas são boas, acalente quando são ruins. Será que alguém lhe dá a chance de ser só um menino?
Esta pátria amada... Esta paternidade irresponsável...Estes filhos mutilados de seus direitos sob um discurso perverso e meritocrático...Estes meninos que tiram a beleza da cidade e insistem em nos mostrar que este Brasil, essa pátria ainda é pai de poucos.
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