O título? Só para chamar a atenção. Estava aqui pensando e fazendo comparações com diversas pessoas que convivo e suas atitudes, e pensando no menino preso no poste pelos "justiceiros".
Com receio, já peço perdão se, sem intenção, parecer que eu quero amenizar o absurdo que temos presenciado nos últimos dias. Seguirei apenas com uma comparação, para pensar nas atitudes cotidianas com que nos deparamos, o que não isenta,nem um pouco, o que o grupo de pessoas -que se julgam acima do bem e do mal- fez com o garoto negro- aquele que noticiaram que tem passagem pela polícia,mas que ninguém até agora tocou em pontos importantes que traçam a história dos menores infratores no Brasil.
Estava exatamente pensando nessas pessoas, com quem nos deparamos, que se julgam acima de um bem e um mal - bem e mal sob critérios delas também. Quantas delas conhecemos? A quantas delas demos o poder de se colocar exatamente nesse lugar? Elas são aquelas que não conseguem olhar sob outra perspectiva que não seja a sua, mais especificamente, o seu umbigo. São aquelas que julgam, condenam e sentenciam diversas pessoas de diversas áreas da sua vida : sua família, seus amigos, sua esposa ou marido, namorado ou namorada, criminosos, bandidos, pivetes, e por aí vai. Elas costumam desconhecer a possibilidade de aceitar o erro,de perdoar, de enxergar as limitações do outro, de entender as causas da atitude do outro, de entender questões que vão além de suas definições de pessoa boa e pessoa má - pecadora ou santa, se eu for trazer para uma ótica religiosa (a Igreja está cheia de gente assim também).
Eu conheço essas pessoas. Boas até, sob algumas perspectivas. Fazem o bem ao próximo - não tão próximo assim (porque o muito próximo, se já tiver errado com ela, já era). Mas, são aquelas pessoas com as quais você não pode cometer qualquer deslize, com elas ou com alguém que lhes possibilite saber o seu erro. Algumas dessas pessoas nos são tão íntimas que a elas damos o poder de nos colocar no "poste", de nos aprisionar em suas definições, em seus julgamentos e, por conseguinte, não "recorrer" às suas condenações.
De algum modo, alguém conferiu aos justiceiros - e muitos "alguéns" conferem agora ao aplaudir seus atos- o poder para que eles cometessem o crime que cometeram. Alguém (talvez até os pais) fez com eles acreditassem que poderiam corrigir o mundo do jeito que quisessem, porque tinham esse poder, uma vez que eram "bons".
Quando permitimos que alguém nos diga quem somos e, por isso, nos sentencia a ser aquilo que ele disse que somos, é porque demos esse poder a essa pessoa. O poste é metafórico, a porrada também. Mas, quantos de nós somos mutilados diariamente por pessoas que nos magoam e das quais não conseguimos nos libertar? Muitas agressões domésticas começam daí, bem como os assédios no ambiente de trabalho.
Muito de nosso sofrimento começa daí, até mesmo a partir de definições que ouvimos desde a nossa infância e de pessoas que, sob a justificativa de nos amarem, acham que podem falar o que querem e como querem. Conheço meninas com distúrbio alimentar por isso; conheci viciados em drogas por isso; conheço pessoas com problemas de relacionamento interpessoal por isso. São as violências cotidianas por meio da palavra - aquele instrumento que não nos damos conta do quanto ele pode interferir na vida do outro.
É difícil não emitirmos julgamentos, eu sei. É difícil não olharmos as pessoas a partir das nossas definições ou pré-definições. Eu aprendo o exercício diário de entender ou tentar entender a atitude do outro quando me deparo com as minhas próprias misérias. A imaturidade faz a gente ficar cheia de conceitos, inflexíveis muitas vezes, cheia de teoria, cheia de distorção sobre a vida.
Mas, aquelas pessoas que prenderam o menino no poste, como aqueles que nos prendem diariamente, não conheceram outro lado da vida que não fosse o "seu mundinho perfeito, do seu jeito e do jeito que devem ser todas as coisas".
No fundo,me parece que os "justiceiros" e essas tantas outras pessoas que conheço partem da mesma premissa, só tem atitudes com proporções diferentes.
E o pior: tenho ficado muito intolerante a todas elas. Daí preciso voltar e me lembrar de fazer meu exercício diário de não sentenciar e condenar as pessoas, fazendo "justiça" com as minhas próprias mãos. No entanto, tem horas que não aguento mesmo e solto "é um idiota que não conhece nada além do seu mundinho umbilical".
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