Eu queria escrever ao longo de todo o dia. Consegui,
então, agora parar para isso e a surpresa: não consigo. Olho para o papel e não
consigo sequer escrever algo que venha de dentro da minha alma. Lembro-me do poema
de Drummond, aquele que nada é assunto para poesia. Não me lembro do título.
Não sou boa em títulos, nunca fui.
Mas, voltando à metalinguagem, percebi que tinha
nada de muito interessante para escrever e até para ser lido. A folha em branco
me lembrou de pessoas. A folha em branco me lembrou do que preciso e do que
tenho agora. A metáfora da folha em branco, tão clichê para ideia de recomeço,
é a única coisa mais sensata que me vem à cabeça. Imagino, inclusive, os
intelectuais lendo um texto como este e pensando: que coisa mais autoajuda.
Talvez, seja mesmo disso que preciso: autoajuda ou “alter-ajuda”.
Não sei se algum Best Seller tocaria em pontos de que preciso, tão delicados,
tão secretos, tão escusos. “Oh, como você foi capaz?”, me diriam alguns, caso
algum dia soubessem. “Meu Deus, logo você?”, falariam outros. Pronto, me livrei
de comentários como esses, e nem eram eles que me incomodavam tanto. Era o
sorriso desmedido, o jeito bonachão, o sapato de quem é muito importante, a
perna cruzada enquanto sentava e a figura de melhor do mundo. Era meu alter
ego. Sempre quis usar essa palavra, eu acho que soa bem para ser bem vista como
intelectual. Só que, de fato, pensando bem, era meu alter ego, bem sucedido,
seguro de si, mais equilibrado, mais inteligente, tudo de mais que todos possam
imaginar. Todos que o conhecem.
Aí, pensando nisso tudo, me dá uma vontade de cantar
“Atrás da porta”. Não consigo terminar,
vou parar de escrever, algo me entala o estômago, aquela coisa que dá na gente
e vai subindo pela garganta. Aquela sensação a qual denominamos tristeza,
mágoa, sei lá. Um dia disse que de tudo que mais queria na vida era sua vida em
poesia dentro da minha vida desmedida, fazendo contas para pagar as contas.
Hoje de tudo o que quero na vida é acabar essa narrativa sem história, não
contar com qualquer possibilidade e matar em mim o personagem principal.


